Come on, let's try!

Olhos líquidos

Eu não estou perguntando se você quer que eu fique. Estou dizendo que vou ficar e pronto. Certo, não precisa. Eu sei, você não precisa de nada e de ninguém, além de ficar sozinha. Vamos então encarar a coisa desta forma: a casa precisa de mim. Logo o chão estará coberto de lenços de papel, haverá sobras de chá de cidreira espalhadas por todo apartamento e o controle remoto da sua televisão vai estar lambuzado de Nutella, especialmente a tecla que libera a dublagem de O Diário de Bridget Jones. Não vou deixar você fazer isso, nem transformar seu lar num cativeiro e tampouco você assistir essa lenga-lenga pela milésima vez, pela milésima vez por causa de um idiota, pela milésima em mau português. Não esquenta, eu vim preparado, não vou precisar ir até em casa arrumar minhas coisas. Já está tudo comigo nesta mochila que eu organizei quando você me disse que estava saindo com aquele cretino. Sim, sim, eu já sabia da fama, apenas não quis cortar seu barato, você estava tão animadinha e minha mãe me ensinou aos gritos que a gente não deve dar vereditos prematuros em relação aos outros. Vai que eu estava errado? Acontece que eu não estava, e seu tivesse te avisado eu teria dito “eu avisei” quando você me ligou toda chorosa informando do auê. Minha tarefa é passar o fim de semana vigiando seu telefone, sua internet, selecionando quem você vai atender, com quem você vai se comunicar. Existem amigos com quem se faz besteira, e amigos que evitam besteiras, sou mais dessa segunda turma. Enquanto eu lavo sua louça, vê se esfrega um xampu nessa cabeça e vem aqui me contar isso direito. Vou fazer um café, a noite, esta em especial, é uma criança gasguita querendo mamar onde só sai pedra. O que eu não entendo, criatura, é como você continua estacionando seu coração em local proibido. Você já não foi multada que chega? Onde mais precisa doer pra você levar jeito? Uma garota tão bonita e gente boa. Se eu não fosse seu melhor amigo, se eu não fosse pateticamente louco de amor por aquela uma, se eu fosse outra pessoa, sei lá, um cara num bar qualquer ou no McDonald’s, eu ia deixar você mexer nas minhas batatinhas. Só estou dizendo que você desperta minha atenção, justamente pelo que você mais se desdenha, como seus ombros franzinos de carregar o continente inteiro nas costas ajudando todo mundo, e seu queixinho geneticamente meio torto, que dá a entender que você está sempre invocada da vida, seu jeito tímido de andar, as mãos no bolso do jeans apertado, toda erradinha, como se tivesse sempre alguém apontando e rindo de você. Você sabe, se eu estou aqui, é porque sou seu fã, porque você vale a pena, porque eu te gosto, e enquanto você tenta fazer esses seus lances rolarem com esses babacas, eu sinto sua falta, de conversar contigo, de ganhar aquele seu “oi” reto, com cara de sono e os olhos líquidos, na primeira aula de laboratório da manhã. Eu sei, eu sei, parece que estou tirando vantagem da sua fragilidade temporal para flertar contigo, porque eu sou um rapaz, e você uma garota e blá-blá-blá. Não é isso, baixa a guarda, está tudo bem, quando você vomitou no meu colo naquela viagem para São Paulo das Missões deu pra ver de cara que você não era pra mim. Lembra depois, nosso fiasco na enfermaria? Você toda grogue e quase tendo orgasmos por efeito do Tramal e eu do lado de fora, sôfrego como um pai de estreante. Eram só umas pedras no rim. Isso, adoro te ver assim, fico todo orgulhoso de fazer você rir, foi pra isso que eu vim. Eu não sei o que dá na cabeça de um sujeito desses te fazer triste assim. Terminando de enxaguar esses pratos a gente vai até o sofá dar um jeito nessa dor, talvez eu tire algum som do James Taylor ou escove seus cabelos ou faça uma massagem profissional nos seus pés, vamos tirar esse joanete da sua alma. Se nada funcionar, a gente cata uma navalha e faz uns cortes sequenciais no seu braço pra liberar endorfina e trapacear a dor, como fez o dr. House naquele episódio, lembra? Não foi contigo que eu vi? Claro que foi, você deve ter embarcado no sono, como sempre. Como pode? É só te aconchegar de conchinha, contar até dez e pronto: você dormiu. E eu fico me sentindo o cara-todo-poderoso que está lá pra te proteger. Sei que você deve achar que nunca mais conseguirá transar na vida, que ninguém nunca pedirá pra ser seu marido e aquela coisa de felicidade está cada vez mais longe, ou que todas as estrelas da sorte daqui a pouco cairão na sua testa. Mas pelo amor dos céus, é só um relacionamento falido, mais um, grande áfrica. Olha o lado bom, chora hoje, deixa seus olhos líquidos escorrerem toda essa maquiagem fúnebre, desenha com rímel preto um novo dia na minha camiseta. Amanhã, de rosto novo, a gente pinta uma carinha feliz e circense, e eu te levo de carro pra ver o mar. Ninguém vai perceber seu riso postiço, o mundo inteiro vai estar ocupado sorrindo com você. Confia em mim, às vezes quem está de fora enxerga melhor. E daqui vejo seu sorriso, sei bem do que ele é capaz de fazer.

DE: GABITO NUNES.


Confia em mim, às vezes quem está de fora enxerga melhor. E daqui vejo seu sorriso, sei bem do que ele é capaz de fazer.


A vida me ensinou a dizer adeus às coisas que amo, sem tirá-las do meu coração.


É mais fácil dizer que não quer quando a gente tá longe, né.


“Eu admiro demais os detalhes. O detalhe de um sorriso tímido, da forma como os olhos se movem. Tudo revela algo.”


Foi o que aconteceu, depois que eu abri passagem. Eu não sei se ela queria que eu lutasse ou não, mas agora tanto faz. Sinto saudades, dói um pouco, mas estou mais interessado em qual será a primeira garota com a qual vou transar, depois dela. Ando curioso e preciso saber. Quando há sol e você tem um monte de gente pra conversar, fica fácil de suportar. O brabo é pelas dezoito horas, quando a noite vem.

– GN

– Eu te traí, porra! Você não escutou o que eu disse antes? Tem sangue de barata? Por isso que eu digo que preciso de um homem de verdade… Cara, você deveria estar me esbofeteando agora. Como você pode ainda me querer? Puta, que merda…
– Tenho certeza que você merece, mas se eu dar na sua cara, outra vez estarei dando o que você quer, fazendo suas vontades. E eu já parei com isso. Fora que, quem sou eu pra me queixar? Eu também fiz merda.
– Não acredito. Falando sério? Putz. Que droga. A gente está fazendo tudo errado. Não era pra ser assim. Estou dando o fora. Separa minhas coisas. Pego tudo semana que vem.
(…)

– Você ainda está aí, não é? Parada no corredor como eu disse.
– Perto de você parece tão tarde. Aqui do lado fora, no corredor, parece tão cedo. Algum palpite? Meus sentimentos por você são tão relativos. O que você acha?
– Você quer entrar? Talvez a gente consiga remendar alguma coisa.
– Se você me chifrar de novo, eu prometo, pago alguém para matar você. Ou eu mesma corto seu pau fora.
– Olha quem fala…
– Cala a boca e me abraça forte.

– GN. (história parecida com a minha, porém sem esse final feliz)

– Eu fiquei com um carinha ontem. E não foi porque bebi. Nem porque estou confusa. Beijei. Simples assim. E quer saber? Eu gostei.
– Não perguntei. E não importa o porquê ou se você gostou. Eu sempre soube que faria uma coisa dessas, um dia. Você vive fugindo de tudo, da intimidade, do carinho, dos domingos, de você e de mim. O que eu quero saber é: por que você ainda não saiu atrás do seu amor de plástico? Eu mesmo te respondo: por que sou o seu Saara.
– Saara? Lá vem você de novo. Fala claro.
– Deserto. Você está bem no meio, perdida, em alguma parte central do meu território. E quanto mais você corre, mais interminável ele parece. Você pisa em mim, minha ardência queima seus pés, por isso você corre. Sabe, eu acho um sarro te assistir tonta e desesperada indo para todo lado, sem alcançar lugar algum. Ainda assim, mesmo dentro de mim, você se sente sozinha. Fica procurando mudas de Amor-Perfeito e não lembra que no deserto as flores não germinam. Só os cactos. Tudo que você precisa são cactos, mas deseja flores coloridinhas. Você não dá valor ao que tem, só às coisas idiotas que te dão vontade. E mesmo quando consegue, não interrompe as buscas.
– Você acha que me conhece.
– E conheço! Você tem alergia a crustáceos. Se fosse uma música, seria “Ruby Tuesday” dos Stones. Esconde literatura erótica debaixo do travesseiro. Perdeu a virgindade quando já estava quase no fim da faculdade. Diz que seu filme preferido é Vanilla Sky só para soar cult no meio da sua galera, mas na verdade é aquele em que a Meg Ryan se apaixona pelo Tom Hanks via correio eletrônico. Odeia sua mãe. Sei também que assim que eu fechar a porta, você vai ficar letárgica no corredor, com a mão espalmada na parede, pensando “O que eu estou fazendo? O que eu estou fazendo? O que eu estou fazendo?”. Durante cinco minutos.

– GN

– Eu quero ir embora. Solta meu braço. Me deixa passar.
– Já deixei uma penca de amores passar. Não pretendo fazer o mesmo contigo.
– Eu não sou seu amor. Nem nunca vou ser. Larga meu braço.
– Há controvérsias, mas tudo bem. Pode ir. Vamos ver até onde você vai antes entrar nesse mesmo prédio, subir as escadas até o mesmo andar, bater na mesma porta.
– Não conte com isso. Não cultive grandes esperanças. Eu quero andar com os pés no chão. Numa areia que não me queime os pés. Cansei dessa vida movediça. Chega de romance de prosa e verso.

– GN

calma ai! espera 10min antes de me tirar da sua vida, de esquecer quem eu sou, e me deixa chegar mais perto de você e, de alguma forma, compartilhar um pouco do irresistível, imortal, poderoso, incondicional, envolvente, enriquecedor, agregador, atual, infinito amor que eu tenho por você.


“eu ando pela cidade, pensando: é vazio sem você. mas eu quero o que você quiser e penso que estou me perdendo. mas vou contar o pior de mim e tentar dar o melhor de mim, porque você não merece nada menos que isso.”


“me derreter quando você sorrir. me desarmar quando você ri.”


“choramingar quando estou perto de você. e choramingar quando não estou.”


“me arrepender quando estou errada. e feliz quando você me perdoa.”


Não quero sua amizade se não houver amor. Não quero seu amor se não houver sua amizade.


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